Repúdio ao cancelamento do espetáculo teatral "Sebastian" no 23° FESTINVER, por Daiane Dordete

Atualizado: 10 de Jan de 2019



é preciso estar atenta e forte..

Na minha leitura, uma temática comum perpassa estas situações de censura: questões que tangenciam gênero e sexualidade, principalmente quando estas se aproximam da mitologia ou dos dogmas das religiões. Porém, tão lamentável quanto estes atos de censura, é ter que defender no Conselho Estadual de Cultura, nas universidades, nas famílias, nas esquinas e em todo lugar que os direitos da comunidade LGBT+ e das mulheres estão longe de ser “assunto superado”, assim como os direitos da comunidade negra, das comunidades indígenas, das pessoas com necessidades especiais e de toda a classe das minorias sociais. Eu poderia falar aqui sobre uma infinidade de questões, como oportunidades de acesso ao estudo e ao trabalho, salários igualitários, direitos sobre o próprio corpo (como o aborto), casamento civil e direitos patrimoniais, licença-maternidade e licença-paternidade, creches, representatividade social, etc. Mas vou me ater a três questões essenciais: o direito de ir e vir nas cidades, sem ser assediadx, estupradx ou espancadx por conta de seu gênero ou sexualidade; o direito de ser quem você é; e o direito de amar.

Simone de Beauvoir disse há quase um século que “basta uma crise política, econômica ou religiosa para os direitos das mulheres serem questionados”. Eu atualizo este pensamento dizendo: basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres, da comunidade LGBT+, dxs pobres, dxs trabalhadorxs, da comunidade negra, da comunidade indígena, dxs quilombolas, das pessoas com necessidades especiais e de qualquer pessoa ou grupo social que não faça parte da elite brasileira de homens ricos e brancos sejam questionados.




Segue o texto aprovado pelo CEC:


MOÇÃO DE REPÚDIO PELO CANCELAMENTO DO ESPETÁCULO TEATRAL “SEBASTIAN” NO 23º. FESTINVER


O Conselho Estadual de Cultura do Estado de Santa Catarina vem a público repudiar o cancelamento do espetáculo teatral “Sebastian”, produzido pelo Simurg – Núcleo de Pesquisa Cênica da Universidade Federal do Rio Grande do SUL (UFRGS), que seria apresentado no dia 18 de julho de 2018 no 23º. Festival de Inverno de Gaspar (FESTINVER), em parceria com o 31º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (FITUB).

Segundo a publicação na página da UFRGS, universidade na qual o espetáculo foi desenvolvido, o mesmo aborda a temática “do sofrimento das vítimas do preconceito, intolerância e violência no Brasil, sendo elas os membros da comunidade LGBTTQI+, principalmente travestis, transexuais e mulheres.” Mais uma vez acompanhamos o cerceamento da liberdade de expressão e criação artística no país, desta vez com a justificativa de contradições na classificação indicativa do espetáculo (pelo fato do mesmo conter cenas de nudez). 

É triste o fato da comunidade local de Gaspar ter sido prejudicada com a supressão da discussão deste tema urgente abordado pelo espetáculo, através de um ato que reitera e representa a estruturação da violência em diversos graus na sociedade brasileira: a violência a toda a classe das minorias marginalizadas socialmente não é apenas a física, mas também a simbólica, a jurídica, a patrimonial, a financeira, a emocional e a institucional. É com base nestas premissas que o Conselho Estadual de Cultura do Estado de Santa Catarina se solidariza às e aos artistas, técnicas e técnicos do espetáculo, e com a organização do 31º Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau (FITUB), e torna público seu apoio para que continuem resistindo às violências através da arte.”


Preciso registrar aqui que uma frase de minha proposta inicial de moção de repúdio à censura da apresentação do espetáculo “Sebastian” em Gaspar foi vetada. Esta frase destacava justamente questões de gênero e sexualidade, temáticas centrais do espetáculo, além de citar minorias sociais marginalizadas e usurpadas em seus direitos. A justificativa para excluir tal frase da moção foi que o CEC não deve “defender pautas de determinados grupos sociais”, e sim “a liberdade de expressão como um todo”. Ora, minha gente, desde quando somos um todo? Se o fôssemos, não viveríamos em um mundo tão bom pra uns e tão ruim pra outrxs. Se a própria cultura é diversa, como ignorar as demandas e questões próprias da diversidade cultural, presentes em obras artísticas e em manifestações culturais de modos específicos? Estes discursos são indícios dos tempos em quevivemos...

Por isso, camaradas, é preciso estar atenta e forte!


Florianópolis, 10 de agosto de 2018.